Um guia objetivo para profissionais de pronto-socorro sobre o que fazer desde a chegada do paciente até a decisão de reperfusão.
O AVC na emergência é uma corrida contra o tempo. Segundo o Ministério da Saúde, o AVC está entre as principais causas de morte e incapacidade no Brasil. Grande parte das sequelas depende da rapidez do atendimento.
Na prática, porém, minutos se perdem em etapas simples. Triagem que não reconhece o quadro, horário de início mal registrado, glicemia esquecida, exame de imagem que demora. Cada atraso reduz a chance de tratamento.
Neste artigo, você vai entender como reconhecer o AVC, o que fazer na avaliação inicial e como funciona a janela terapêutica para reperfusão.
O que é AVC
Acidente vascular cerebral (AVC) é a perda súbita de função neurológica causada por interrupção do fluxo sanguíneo ou por sangramento no cérebro. Ele pode ser isquêmico ou hemorrágico.
O AVC isquêmico acontece quando uma artéria cerebral é obstruída e responde pela maioria dos casos. Já o AVC hemorrágico ocorre pelo rompimento de um vaso. Ele é menos frequente, mas costuma ser mais grave.
Essa diferenciação só é feita com exame de imagem. Por isso, nenhum tratamento de reperfusão começa antes da tomografia ou ressonância.
Como reconhecer o AVC rapidamente
O AVC costuma se manifestar de forma súbita. Esse é o ponto-chave. Sintomas que surgem de repente exigem suspeita imediata.
Uma ferramenta útil para a triagem é o BE-FAST. A sigla lembra a perda súbita de equilíbrio (Balance) e a perda visual repentina (Eyes). Também orienta a observar o desvio de rima labial (Face) e a fraqueza em um braço (Arms).
Além disso, a sigla inclui a alteração da fala (Speech), seja arrastada, seja com dificuldade de compreensão. Por fim, o T de Time lembra que é hora de agir e de registrar o horário de início.
Da mesma forma, cefaleia súbita e muito intensa pode indicar AVC hemorrágico. Nesses casos, a suspeita também deve ser imediata.
Resposta direta: como reconhecer um AVC na emergência?
Suspeite de AVC diante de qualquer déficit neurológico súbito, como desvio de rima, fraqueza em um lado do corpo, alteração da fala ou perda visual. Escalas como o BE-FAST ajudam na triagem. Registre imediatamente o horário em que o paciente foi visto bem pela última vez.
Avaliação inicial: o que fazer nos primeiros minutos
A avaliação inicial deve ser rápida e organizada. Assim que houver suspeita, o protocolo de AVC da instituição precisa ser acionado. Ao mesmo tempo, a equipe avalia via aérea, respiração e circulação, porque estabilizar é prioridade.
Logo em seguida, checa-se a glicemia capilar. A hipoglicemia pode imitar um AVC e é facilmente corrigida. Depois, define-se o horário de início. Se ele não foi presenciado, considera-se o último momento em que o paciente foi visto bem.
Com o paciente estável, aplica-se a escala NIHSS, que quantifica a gravidade do déficit. Então, o paciente segue para exame de imagem, geralmente tomografia de crânio sem contraste.
Os exames laboratoriais são coletados conforme o protocolo, mas não devem atrasar a imagem. Durante todo o processo, pressão arterial, saturação e ritmo cardíaco permanecem monitorizados.
Por que o horário é tão importante
O “último momento visto bem” define a elegibilidade para os tratamentos. Um paciente que acordou com sintomas, por exemplo, tem como referência o horário em que foi dormir.
Por isso, perguntar e registrar o horário é responsabilidade de toda a equipe. Um horário impreciso pode excluir um paciente de um tratamento a que ele teria direito.
O que é a escala NIHSS
A NIHSS (National Institutes of Health Stroke Scale) é uma escala padronizada que avalia a gravidade do AVC. Ela examina consciência, olhar, campo visual, face, força dos membros, sensibilidade, linguagem, fala e atenção.
A pontuação vai de 0 a 42. Quanto maior, mais grave o déficit. A escala orienta a decisão terapêutica e permite comparar a evolução do paciente.
Janela terapêutica para reperfusão
Janela terapêutica é o intervalo de tempo em que o tratamento de reperfusão pode trazer benefício com risco aceitável. No AVC isquêmico, existem duas estratégias principais.
Trombólise intravenosa
A trombólise usa medicamento para dissolver o coágulo. De modo geral, pode ser indicada em até 4,5 horas do último momento visto bem, respeitando critérios de inclusão e exclusão.
Antes da trombólise, a pressão arterial precisa estar controlada dentro dos limites do protocolo. Além disso, a equipe monitora de perto sinais de sangramento após a infusão.
Trombectomia mecânica
A trombectomia retira o coágulo por cateterismo e é indicada em oclusões de grandes vasos. Em geral, é realizada em até 6 horas. Em pacientes selecionados por exame de imagem avançado, pode ser considerada em até 24 horas.
No entanto, a trombectomia depende de centro com estrutura de hemodinâmica. Por isso, a rede de encaminhamento também faz parte do protocolo.
Em resumo, a trombólise tem janela geral de até 4,5 horas e exige exclusão de hemorragia. A trombectomia, por sua vez, vai até 6 horas, podendo chegar a 24 horas em casos selecionados, e exige oclusão de grande vaso e centro especializado.
Tempo é cérebro
As diretrizes estabelecem metas de tempo para o atendimento. Uma das mais conhecidas é o tempo porta-agulha, que é o intervalo entre a chegada e o início da trombólise. A meta clássica é de até 60 minutos.
Erros comuns no atendimento ao AVC
O erro mais grave é não registrar o horário de início ou o último momento visto bem. Logo depois vem o esquecimento da glicemia capilar, que pode levar a um diagnóstico equivocado.
Também é comum classificar o paciente com baixa prioridade na triagem. Outro erro frequente é atrasar a tomografia enquanto se aguardam exames laboratoriais. Por fim, reduzir a pressão arterial de forma agressiva, sem orientação médica, pode piorar a perfusão cerebral.
Checklist dos primeiros passos no AVC na emergência
O atendimento começa com a suspeita identificada na triagem pelo BE-FAST e o protocolo de AVC acionado. Em seguida, confirme se o último momento visto bem foi registrado e se o ABC foi avaliado, com o paciente estabilizado.
Depois, verifique se a glicemia capilar foi checada e se a NIHSS foi aplicada. Garanta também que o exame de imagem foi solicitado com prioridade e que os sinais vitais seguem monitorizados.
Por último, certifique-se de que a equipe e a família foram informadas. Cada uma dessas etapas, quando esquecida, custa minutos preciosos.
Como a formação prepara para o protocolo de AVC
Conhecer a janela terapêutica é o básico. O difícil é executar o protocolo com agilidade, em equipe, em um pronto-socorro lotado.
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Perguntas frequentes
Qual é a janela terapêutica do AVC isquêmico? De modo geral, a trombólise intravenosa pode ser feita em até 4,5 horas. A trombectomia, em até 6 horas, podendo chegar a 24 horas em casos selecionados.
O que é “último momento visto bem”? É o horário em que o paciente foi visto sem sintomas pela última vez. Ele é usado como início do AVC quando o começo não foi presenciado.
Por que fazer tomografia antes de tratar o AVC? Porque é preciso descartar sangramento. A trombólise é contraindicada no AVC hemorrágico.
O que é tempo porta-agulha? É o tempo entre a chegada do paciente e o início da trombólise. Quanto menor, melhor o resultado esperado.
Qual a diferença entre trombólise e trombectomia? A trombólise dissolve o coágulo com medicamento. A trombectomia retira o coágulo mecanicamente, por cateterismo.
O enfermeiro pode aplicar a escala NIHSS? Sim, desde que treinado. A aplicação padronizada da escala é comum em equipes de protocolo de AVC.
Paciente que acordou com sintomas de AVC pode receber tratamento? Em alguns casos, sim. A decisão depende de exames de imagem avançados e da avaliação médica.
Hipoglicemia pode parecer AVC? Sim. Por isso, a glicemia capilar deve ser checada logo no início do atendimento.
Sobre a ITH
A ITH é uma instituição de ensino superior dedicada à formação de profissionais da saúde. Seus cursos de pós-graduação são conduzidos por professores atuantes e unem fundamentação técnica e vivência prática.
A proposta Nada Raso orienta toda a formação: profundidade técnica conectada à rotina dos serviços de saúde.
Conclusão
No AVC na emergência, cada etapa conta. Reconhecer rápido, registrar o horário, checar glicemia, aplicar a NIHSS e priorizar a imagem são ações simples. Juntas, elas definem se o paciente chega a tempo da reperfusão.
Por isso, o protocolo não é responsabilidade de uma única pessoa. É resultado de uma equipe treinada e alinhada.
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