Guia prático para enfermeiros e profissionais da emergência aplicarem a ECG com reatividade pupilar, sem erros de pontuação.
A escala de Glasgow atualizada é o instrumento mais usado no mundo para avaliar o nível de consciência. Ela orienta decisões críticas, como a indicação de via aérea definitiva no trauma.
No entanto, muitos profissionais ainda aplicam a versão antiga ou cometem erros que alteram a conduta. Afinal, um ponto a mais ou a menos muda a classificação de gravidade do paciente.
Neste artigo, você vai entender o que mudou, como aplicar cada etapa e como registrar o resultado corretamente.
O que é a Escala de Coma de Glasgow
A Escala de Coma de Glasgow (ECG) mede o nível de consciência por meio de três respostas: ocular, verbal e motora. Os neurocirurgiões Graham Teasdale e Bryan Jennett criaram a ferramenta em 1974, na Universidade de Glasgow.
A pontuação total varia de 3 a 15. Quanto menor o valor, maior o comprometimento neurológico.
Além de classificar a gravidade, a escala permite acompanhar a evolução do paciente ao longo do tempo. Por isso, a equipe deve reaplicá-la em intervalos regulares.
O que mudou na escala de Glasgow atualizada
A escala passou por duas revisões importantes nos últimos anos.
Em 2014, os autores padronizaram a nomenclatura. A expressão “resposta à dor” deu lugar a “resposta à pressão”. Além disso, a escala passou a incluir a opção NT, de “não testável”, para situações em que algum fator impede a avaliação.
Em 2018, veio a principal mudança: a inclusão da reatividade pupilar. Essa versão recebeu o nome de ECG-P. Nela, o profissional subtrai a pontuação pupilar do total, o que melhora a estimativa de prognóstico.
Os critérios da escala de Glasgow atualizada
Abertura ocular
A abertura ocular vale de 1 a 4 pontos. O paciente recebe 4 pontos quando abre os olhos espontaneamente. Quando abre apenas ao ouvir a voz, recebe 3. Se abre somente após estímulo de pressão, recebe 2. Por fim, quando não há abertura ocular, recebe 1.
Resposta verbal
A resposta verbal vale de 1 a 5 pontos. O paciente orientado no tempo, no espaço e sobre si mesmo recebe 5. Quando conversa, mas de forma confusa, recebe 4. Se emite apenas palavras soltas e sem sentido, recebe 3. Quando produz somente sons incompreensíveis, recebe 2. Já a ausência de resposta verbal vale 1.
Melhor resposta motora
A resposta motora vale de 1 a 6 pontos e considera sempre o melhor movimento observado. O paciente que obedece a comandos recebe 6. Quando localiza o estímulo de pressão e tenta afastá-lo, recebe 5. A flexão normal do membro vale 4, enquanto a flexão anormal vale 3. A extensão do membro vale 2. Por último, a ausência de movimento vale 1.
Reatividade pupilar
A reatividade pupilar funciona de forma diferente, porque o valor é subtraído. Quando as duas pupilas reagem à luz, o profissional não subtrai nenhum ponto. Se uma pupila não reage, subtrai 1. Quando nenhuma das duas reage, subtrai 2.
Em qualquer um dos componentes, o profissional registra NT quando um fator impede a avaliação, como intubação, edema ocular ou sedação.
Como aplicar a escala de Glasgow passo a passo
Primeiro, verifique os fatores de confusão. Antes de começar, identifique sedação, intubação, lesões oculares, barreira de idioma ou déficit auditivo, porque todos eles alteram as respostas.
Em seguida, observe o paciente sem estimulá-lo. Verifique se ele abre os olhos sozinho, se fala e se movimenta os membros espontaneamente.
Depois, estimule com a voz. Chame o paciente pelo nome em tom normal e aumente o volume se ele não responder.
Caso não haja resposta ao som, aplique estímulo de pressão padronizado. Os pontos recomendados são o leito ungueal, o músculo trapézio e a incisura supraorbital. Mantenha a pressão por até 10 segundos.
Logo após, avalie as pupilas com uma lanterna, observando a reação de cada uma à luz separadamente.
Por fim, pontue e registre cada componente separadamente, além do total.
Como calcular a pontuação: fórmula e exemplos
A fórmula da escala de Glasgow atualizada é simples: ECG-P = O + V + M − P.
Considere, por exemplo, um paciente vítima de queda. Ele abre os olhos apenas à pressão, o que vale 2 pontos. Além disso, fala palavras desconexas, somando mais 3, e localiza o estímulo, somando 5. Assim, a ECG total é 10. Como uma das pupilas não reage à luz, o profissional subtrai 1 ponto, e a ECG-P fica em 9. O registro correto é O2 V3 M5 P1, com ECG 10 e ECG-P 9.
Agora, imagine um paciente intubado que abre os olhos à pressão e apresenta flexão normal. Nesse caso, a resposta verbal não pode ser avaliada. Portanto, o registro correto é O2 VNT M4, sem somar um total. Atribuir 1 ponto à resposta verbal de um paciente intubado distorce o resultado e subestima o nível de consciência.
Classificação da gravidade do TCE
A classificação do traumatismo cranioencefálico usa a pontuação da ECG. Pontuações entre 13 e 15 indicam TCE leve. Já valores entre 9 e 12 correspondem a TCE moderado. Por fim, pontuações entre 3 e 8 indicam TCE grave.
Pacientes com ECG igual ou menor que 8 têm indicação de avaliação de via aérea definitiva. Essa decisão, porém, considera o quadro clínico completo, e não apenas o número.
Por outro lado, na ECG-P, valores muito baixos, como 1 ou 2, indicam prognóstico extremamente grave.
Erros comuns na aplicação da escala de Glasgow
O erro mais frequente é registrar apenas o total. Um “Glasgow 10” esconde informações importantes, já que dois pacientes com o mesmo total podem ter perfis neurológicos bem diferentes. Por isso, registre sempre os componentes.
Outro erro comum é atribuir 1 ponto quando o item não pode ser testado. Nessas situações, use NT. Caso contrário, o escore fica artificialmente baixo.
Muitos registros também trazem a expressão “Glasgow menor que 3”. No entanto, essa pontuação não existe na escala tradicional, cujo mínimo é 3. Apenas a ECG-P chega a 1 ou 2.
Além disso, alguns profissionais ainda usam estímulos inadequados, como esfregar o esterno. Essa prática não é o padrão recomendado e pode causar lesão.
Por último, há quem some a reatividade pupilar. Lembre-se: a pontuação pupilar é sempre subtraída.
Checklist de aplicação correta
- Antes de registrar o Glasgow no prontuário, confirme:
- Comparei com a avaliação anterior?
- Identifiquei fatores de confusão, como sedação, intubação ou lesão ocular?
- Observei o paciente antes de estimular?
- Usei estímulo de pressão padronizado?
- Avaliei as duas pupilas separadamente?
- Registrei cada componente, e não apenas o total?
- Usei NT onde o item não podia ser testado?
Perguntas frequentes
Qual é a escala de Glasgow atualizada?
É a versão de 2018, que inclui a reatividade pupilar. Ela soma as respostas ocular, verbal e motora e subtrai a pontuação pupilar.
Qual a pontuação mínima e máxima da escala de Glasgow?
Na ECG tradicional, o mínimo é 3 e o máximo é 15. Já na ECG-P, a pontuação varia de 1 a 15.
Como pontuar Glasgow em paciente intubado?
Registre a resposta verbal como NT. Assim, você documenta os componentes separadamente, sem calcular um total que induza a erro.
Glasgow 8 é indicação de intubação?
ECG igual ou menor que 8 indica TCE grave e sinaliza a necessidade de avaliar via aérea definitiva. A decisão final, porém, depende da avaliação clínica completa.
Com que frequência devo aplicar a escala?
A frequência depende do protocolo institucional e da gravidade do paciente. Em pacientes instáveis, a reavaliação costuma ser mais frequente.
Enfermeiro pode aplicar a escala de Glasgow?
Sim. A aplicação faz parte da avaliação neurológica realizada pela enfermagem, especialmente em emergência e terapia intensiva.
Sobre a ITH
A ITH é uma instituição de ensino superior dedicada à formação de profissionais da saúde. Seus cursos de pós-graduação são conduzidos por professores atuantes e combinam fundamentação técnica com vivência prática.sao os
O conceito Nada Raso orienta a formação na ITH: profundidade técnica conectada à rotina real dos serviços de saúde.
Conclusão
A escala de Glasgow atualizada exige mais do que decorar pontuações. Ela exige método: observar, estimular corretamente, avaliar as pupilas e registrar cada componente. Quando a equipe aplica a escala com padrão, a passagem de plantão fica mais segura e a deterioração neurológica é identificada mais cedo.
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